Lembro-me que no Brasil chamam pancadas de chuva. Por cá diz-se que o céu abriu as torneiras.
Nada mais que um som (forte) de uma rega extensiva ao que a vista alcança, quebra os 2 sons mais perfeitos - dos pássaros e vento - de um despertar no meio do nada… nada mesmo… mas mesmo nada… A cada chuvada (nesta manhã contei até 6 e depois achei que estava a fazer figura de tuga parvo e fiquei por aí), o vento embrutecia e a passarada calava-se, contrariadamente molhada, como eu, que me aventurei numa caminhada pelo acampamento… Apesar de serem rápidas, são intensamente molhadas (até às cuecas)…
Aí vem outra. Ouve-se á distancia o rasto que vai deixando nas árvores e terra. Consegue-se definir perfeitamente de onde vai aparecer (esquerda/direita/frente/detrás) e para onde passará… imaginem um extenso vale aos vossos pés com a savana à mercê da rega quase automática e meticulosa de cada chuvada… Pergunto-me se um dia estas torneiras abertas conseguirão encher a lagoa que ao fundo se vislumbra e outrora, preenchia todo o vale (havia hipopótamos e crocodilos aqui!) – principal razão da implementação deste lodge comunitário, pela Ong local e a OMT.
Ontem, a viagem de 120km iniciou-se devagar e acabou devagarinho… Não interessa o número de quilómetros! A distancia mede-se em tempo!! Por exemplo, quando perguntei ao guarda do 1º acampamento comunitário onde morava, a resposta foi ali perto, uma hora caminhando…
Assim, encontrava-me do lado direito de uma pick-up (mas não ia a conduzir… apenas travava fundo de vez em quando - aqui conduz-se pela direita ou melhor, aqui avança-se pela direita e também pela esquerda e pelo centro…eh eh)
Direcção Sul, na rota da Ponta do Ouro, “estancia balnear” fronteira com a África do Sul. Para os que se perguntam porque coloquei aspas, é porque cada vez mais entendo que a distancia que separa a nossa realidade europeia da africana, não é apenas física…
Então – por cá diz-me muito então (não sei se para concluir pensamento ou para encurtá-lo) – a jornada passa pelo “ferry” que atravessa o rio Maputo até Catembe, praia praticável mais próxima (a da Costa do Sol, dizem-me é impossível ao fim de semana tal o numero de gente que a ocupa). A 1ª parada foi num hotel (de um belga) com excelente vista para a grande cidade e que nos surpreendeu no ambiente ( mas caro como um raio – o quarto duplo custa o dobro do que praticava a Casa de Estoi!?!?)
Dizia-se que tinha um “museu” alusivo à passagem de Samora Machel, 1º Presidente de Moçambique. O certo é que na visita “guiada” á sala “museu” (reparem que as aspas continuam) compreendemos que nem o guia sabia de tal acontecimento. Apenas um pequeno memorial em sua homenagem com recortes de jornal, fotocopias e algumas pinturas com a sua imagem…
Seguimos pela “estrada” até “ali mais adiante” onde se encontrou um lodge de uma sra. local com muita pinta para o negócio… Aqui tiro-lhe o chapéu D. Emília. Com dinheiros do banco mundial, e um curso para mulheres empreendedoras do banco Banesto, aos poucos, construiu o seu lodge com quartos para todas as carteiras, com jardim bem ajardinado, esplanada onde se tomou um nice pequeno almoço, com centro de conferencias e discoteca (centro de conferencias de dia, discoteca à noite! Com cabine de dj e tudo!)… tudo isto junto a um rio com uma paisagem de fundo de ficar e não pensar em mais nada… Ou melhor, ainda se pensou dar um mergulha, antes de saber que os crocodilos banhavam-se ali!
De barriga cheia volta-se à estrada que vai deixando de o ser (mesmos para os moçambicanos) aos poucos… de caminho de terra para caminho de terra com pedras, para caminho de calhaus, para caminhos de lama, para caminho de cascalho, para caminho de terra e pasto no meio dos rodados, para caminho de pasto por todo o lado, para caminho de areia, para caminho… onde é que ele está?
Enfim, caros Srs. e Sras., tenho o prazer de anunciar que já fiz o meu Dakar! Não se riem… As dores no corpo que hoje sinto são prova disso… Ai, o que eu não dava por um spa com massagem duche vichy…
“Onde é que eu ia?” Ah, chegamos ao lodge! Vou ter muito trabalho pela frente para promover um espaço cheio de boa vontade e pouco mais… ok, é comunitário! Significa que é gerido pela comunidade, significa que… enfim, vamos batalhar para que esta comunidade consiga ter um contributo (leia-se chegada de turistas) para minimizar os índices de pobreza em que habitam.
Na tentativa de disfarçar uma certa desilusão (confesso que vinha com algumas ilusões e, pois é João, como um teu amigo diz, a desilusão só é tanto maior quanto o tamanho da ilusão) tentei conversar com os meus 2 companheiros nesta 1ª aventura (técnicos da Ong local)… Algumas ideias, considerações, preocupações e certezas apoderaram-se do meu “discurso” mas creio ter desviado a atenção sobre esse 1º sentimento… E, com convite prontamente aceite voltamos ao “Dakar” e fomos à estancia balnear… os 20 km mais estranhos que me lembro… sempre não querendo me iludir mas, depois, mais terra, pasto, areia e dunas!!! È o Dakar, não há duvida… chegamos à praia… paradoxalmente linda e feia… linda na natureza e feia no “desenvolvimento” que atrai! Paradoxalmente, encontramos gentes locais a viver em barracas e gentes turistas sul-africanos, de classe média, a viver em barracas (perdão, tendas!) Ok, também há os chalés (barracas chalés) e as lojas de compras (barracas de compras) e o mercado (barracas de venda, juntas) e os bares e restaurantes e os centros de surf e mergulhos (barracas de tudo) e esplanadas (barracas abertas)… e foi numa dessas esplanadas que nos sentamos com o Jorge, um moçambicano 5 estrelas que vive de passeios de barco aos golfinhos e baleias… Negócio que implantou na Ponta do Ouro, depois de deixar Maputo e se divorciar da mulher que lhe exercia violência doméstica – chegou a acordar dum sono com uma catana encostada aos tomates… No meio de 3 Black label (não do Johnny) mas a cerveja sul africana que por aqui se bebe, trocamos conversas e gargalhadas como se a amizade, que não existia, não contasse… (peçam-me para noutra altura lhes contar a história (real) do tubarão… eh eh
Bem haja, Jorge… que o vento, que por aqui é muito, te sopre pelas costas… sempre é melhor lidar com tubarões do que com mulheres com catana na liga… eh eh E elas andam, não na liga mas na mão! Andando à beira da estrada, de catana na mão!
De volta ao acampamento, uma ultima paragem num bar disco, feito de canas e palha e com uma vista para um vale e praia… Incrível, um ambiente que só visto… o ar, as pessoas, a música, a dança… e eu ali, de cerveja na mão (a abaladeira), como se estivesse a assistir a uma cena típica dum filme (à vossa escolha) do David Linch…
No caminho de volta uma das imagens que ficarão seguramente para sempre na minha memória: ao repto para parar a pick-up para despejar uma cervejinha, o colega assim o fez e, no meio da savana, no meio do escuro (luzes do carro desligadas) contempla-se um céu único!! Milhões de estrelas, nuvens de estrelas, rastos delas… Uma claridade salpicante, imensa, que envolve a Terra. Aqui, no hemisfério sul, no meio do escuro que não se tem na Europa, o céu é outro…
joão 07.07.10
3 comentários:
Conta a história do tubarão! :)
Sim conta ou escreve lá a história do tubarão.
Quando te leio fico cheio de inveja de não estar ai contigo. Sinto saudades dessas paragens e dessas vivencias e só lá estive 28 dias. Na verdade, tal como te dizia a senhora indiana dos câmbios, primeiro estranha-se e depois entranha-se. Estou certo de que isso mesmo te vai acontecer...! Eu quero ver ..!
E no céu há tantas estrelas que não há como contá-las... Mas eu quase que as contei todas em STP!
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