dicas para uma melhor leitura...

as pseudo crónicas estão apresentadas da última para a primeira... logo a leitura inicial deve ser dos textos mais a baixo para os mais acima! (as datas, no fim de cada uma, ajudam)

também têm na coluna da direita o arquivo das mesmas por mês.

assim, o melhor é mesmo clicar num titulo (do arquivo) de cada vez, a partir de baixo para cima.

Bem vindos,
joão


chegada de mz... onde morria a saudade

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chegada de mz, a set on Flickr.



No Mar Das Tuas Pernas

No mar das tuas pernas
é que mora a saudade
e as horas são eternas
quando tenho vontade
de me ir afogar
naquela onda
que o céu quer ocultar
na sombra dos teus seios
é que eu vou descobrindo
que o mal dos meus anseios
é que ao ver-te eu vou indo
sem me recordar
de tudo aquilo
que eu nunca vou deixar
bocas, beijos e ais
a dor que traduzi
nos restos imortais
que eu compreendi
ao estar dentro de ti
o teu suor passei
sobre o meu peito liso
pressinto a maré cheia
que chega sem aviso
para inundar
a tua alma
que é feita só de mar
bocas, beijos e ais
a dor que traduzi
nos meus restos imortais
que eu compreendi
ao estar dentro de ti
o corpo está cansado
um barco chega ao cais
mas vendo o teu bailado
digo que quero mais
vem-te afogar
no mar da minha solidão

Tiago Torres da silva

Por um punhado de amor... (Ou o post que faltava no desviajante.blodgspot.com?)

“ Fistful of love”, by Antony & the Johnsons -


Muitas vezes, em determinados momentos da vida, há musicas que nos perseguem ou nós as perseguimos. Agarramo-nos a elas pela sonoridade ou pelo que nos diz a letra, ou porque fez parte de um momento ou de um sonho...
Esta, pelo contrário, não me deixa dormir! O mais engraçado é que em África me embalava nas certezas das suas sonoridades e palavras. Agora, por cá, qual alma penada, sobrevoa a tentativa de sonhar.
Bastam os primeiros acordes e as primeiras palavras... Vão ruminando sentimentos e germinando pensamentos... Vão embriagando-se de Ses e afogando-se em Porquês sem resposta... Vão desmaiando sonhos e despertando insónias...
Vão desfiando uma história sem pontuação, à boa maneira de Saramago...
Daí este Punhado de amor, seja também um título para uma crónica, um post no blog ou apenas um desabafo...
E poderia começar como a própria música: “I was lying in my bed last night,staring at a ceiling full of stars, when it suddenly hit me,I just have to let you know how I feel"
Apesar de a ouvir constantemente desde que a musica me descobriu, nesta noite encarei um outro céu de estrelas... nem o de cá, nem o de África (um céu inesquecível), mas um céu de certezas incertas, um céu de estrelas onde estão escritas todas as recordações e memórias duma história... Onde está escrito esse punhado de amor... um punhado de felicidade!
E é aí que não durmo e questiono (independentemente de vir a obter resposta ou não): Então se assim o é, que preço por um punhado de felicidade?
E as ramificações de uma pergunta destas, claro: Qual o valor de um momento feliz? De um sonho realizado? De um projecto concretizado? De um sorriso esboçado? Qual o valor do gosto da felicidade?
No meu regresso de Moçambique tinha toda a convicção que sabia exactamente o valor desse simples prazer. Alimentei-o todos os dias, ou alimentava-me a mim... Por todos esses momentos que passei e fiz passar... no antes, muito antes de partir; no intenso durante (pela ausencia) desta desviagem por terras de África; e no depois, o muito depois... pensava eu...
Mas, sabemo-lo mesmo? Exactamente nesse preciso momento, nessa fotografia do tempo, em que nos sentimos felizes, sabemo-lo mesmo?
António Lobo Antunes escreveu: “Muitas vezes as coisas que nos tocam mais são aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos apercebemos.”
Será esse o preço? Não nos apercebermos, porque estamos dentro delas, e já ser tarde quando isso acontece? A psicologia teria muito para dizer sobre o assunto certamente...
Será que abdicamos de algo (a percepção do momento) para podermos ter algo (o próprio momento)? Será inerente, inconsciente e natural essa ausência de percepção? Ou será por vontade própria, por medo, como uma defesa, porque sabemos que se a tivermos não será mais do que um simples momento, porque todos os outros serão preenchidos de tantas e tantas coisas que nos irão anular essa percepção?
E então, teremos que nos guiar sós, afastarmos quem achamos que nos espelha os nossos receios e as nossas ansiedades?
Deixamos de amar uma sociedade, deixamos de amar quem se ama, ou pior, lutamos para deixar de amar porque mesmo difícil, nos é mais fácil!! Abdicamos de projectos, crenças e sonhos, por outros, de curto prazo, porque pensamos que àqueles não conseguimos nos dedicar, em conjunto? Por mais certa (ou estranha) que seja a razão? A nossa razão? O Manuel da Cruz, numa música sua, a certa altura canta: "... o que era mentira pode ser verdade agora"
Teremos que ra(z)ionalizar sempre a vida? o momento? porque sim, por que é a nossa natureza ou porque fomos moldados por ela... e decidir contra emoções? Decidir contra nós próprios, no que fomos, no que somos? decidir contra a natureza das nossas emoções? E (acreditando somente em nós enquanto individuo), simplesmente assumir o que se pretende na nossa individualidade: Sentir o controlo do que se pensa ser felicidade, porque se pensa ter o controlo!
Será?
Pessoa dizia que" a felicidade está fora da felicidade".
Não sei... sinceramente não sei... a vida, o regresso, este momento, o actual cosmos inclina-me, empurra-me para a dúvida!
Mas por querer acreditar que não é bem assim, este post é mesmo um contínuo questionar: Será que no meio deste mundo do descartável (que já absorveu e reciclou todas as formas materiais e imateriais - onde os sentimentos também já são facilmente descartáveis, só faltando um vidrão cor de rosa, junto aos outros na esquina da nossa rua, para a seguir ao jantar irmos despejar sentimentos, junto dos outros trastes consumidos do dia a dia!), entre gerações politicas desgovernantes e gerações nossas à rasca, não se encontre Optimalistas?
Ben-Shahar, professor de psicologia em Harvard, à revista Time, descreve-os como “optimistas realistas - não são os que acreditam que tudo acontece pelo melhor, mas aqueles que retiram o melhor daquilo que acontece!
Talvez seja este o sentimento para o post que faltava ao regresso ao blog...
Talvez seja uma das lições a tirar ao que nos desconcerta e caleja, sejam durante 6 meses num Moçambique que aos poucos se tornou próximo, ou num regresso a uma casa que se revelou inalcançavelmente afastada: Retirar o melhor daquilo que acontece! Mas é preciso saber o como? e o porquê?
Eu sentia-me optimalista quando regressava desta desviagem de 6 meses... Com vontade de partilhar sentimentos, passar novidades, diluir diferenças, mostrar outras formas de encarar realidades e superar o menos bom, eu sei lá... e beber, nos que são parte de mim, as suas boas influencias, olhar neles e ver o que eu continuo a ser... Mas rapidamente a força se tornou fraqueza (talvez esteja apenas adormecida por baixo de um outro céu...) Num estalar de dedo, numa expressão, num olhar, me consumi por uma outra realidade... Do outro lado da porta da rua, um país à rasca de futuro... Do outro lado da cama e do coração, alguém à rasca de certezas... Ao espelho, eu à rasca de saber o que se passou... ou mesmo para (onde) o que regressei?
A um positivismo, esse grande valor intrínseco, aclamado a 7 ventos, posto de parte por receios e ansiedades!?!? Estamos tão à rasca de tudo que acreditamos que já nem somos desenrascados? Que já nem acreditamos no que construímos? Que já nem valorizamo-nos enquanto 10 milhões ou enquanto 2 pessoas ? Caramba, que Tsunami relacional é este, neste regresso a casa ?
O que não dariam os Egípcios, os Líbios, os Tunisinos e agora, os Japoneses para terem apenas, os nossos problemas? O que não dariam pelos nossos sonhos e projectos (por aqueles que tínhamos até há tão pouco tempo)? E por alguns que ainda possamos ter... O que não dariam para poderem ter apenas as nossas boas ilusões? O que não dariam pela nossa capacidade de crer e querer?
O que daria eu por uma boa noite de sonhos? E a manhã para concretizá-los e fim de tarde para adorá-los...
Porque não continuar a acreditar e querer que os nossos sonhos, baseados nas nossas crenças e valores possam definir o nosso amanhã mesmo não definindo, neste momento, o hoje?
Porque não continuar a acreditar que cada minuto que passa, é outra oportunidade de inverter as coisas...
Porque não continuar a regularmo-nos pela convicção que esse preço da felicidade é partilhar a própria felicidade! E os sonhos, as crenças e motivações, os projectos, os anseios e ansiedades, os medos e receios... enfim, o que acreditamos e não acreditamos!
E absorver a partilha de quem nos partilha!
Preencher esse vazio do não saber... e, por conseguinte não ter medo... das coisas simples (como dizia a Chavela Vargas – Las simples cosas) que a partilha nos proporciona...
E saber, com um olhar, que se continua aqui!
Que cada um interprete à sua maneira. Eu sei no que estou a pensar: Numa das partilhas mais felizes da minha vida, que ficará para sempre, apesar de ter um Equador e 2 trópicos a separar essa mesma partilha - Há cerca de 4 meses, pelos meus 40 anos, realizados em Moçambique, nesse dia de 29/11, mais ou menos sozinho, acompanhado de um bom vinho e pensamentos, sentimentos e certezas puras, pelas palavras e olhares, de quem longe, estava perto (pois a distancia que nos separava anulava-se com aquilo que nos aproximava...), escrevia neste desviajante blog um poema de Jorge Luis Borges:

Y uno aprende

Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm um forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos.

Jorge Luís Borges (Poeta Argentino, 1890-1986)


Não é à toa que, consoante o tempo, o lugar e o sentimento que nos domina nesse momento, a sua interpretação é diferente e, eu regressado, sinto-o agora da forma mais inesperada e profunda... Longe de mim esperar que à chegada aprendia-o de outra forma... (a bem ou a mal) Aprende-se! Consoante o tempo, o lugar e o sentimento, cada um preenche os seus vazios à sua maneira - uns com as suas ansiedades e outros com as boas pequenas coisas da vida...
Vejo-as...e vejo-te, nos meus sonhos!

joão
08.04.11

6 meses depois...

Acaba como começou... a rir para não chorar!
E daí não, não acabou assim...

Quase, quase a acabar esta experiência, uma cena como muitas outras desde a primeira:
12h00, hora combinada com a direcção de marketing do Inatur, entidade pública do turismo de Moçambique, para uma reunião no Centro cultural Franco-Moçambicano (costumava marcar reuniões em locais que não fossem mais formais do que aquelas que as presenças de entidades públicas já carregam nos ombros!).
Não, há aqui uma pequena diferença. Como sei que ninguém chega horas (por cá se se combina às 12h00 em tal sitio, usa-se sair do local onde se encontra à hora que se combinou no tal sitio!)Assim, lá ia eu a caminho, quase a chegar ao CCFM e recebo uma mensagem ao 12h05... Pedia para adiar a reunião em 15 minutos pois precisava desse tempo para resolver algo e chegar ao local combinado. Ok, encontramo-nos dentro de 15'
E eu, já no local, peço uma agua pois destilava como nunca na vida, de um calor húmido que me complicava a própria respiração.
Claro que os 15' passaram e mais 15' escorreram, bem como alguns litros de suor e umas quantas águas... às 13h05 recebo outra mensagem a dizer: "João, estou a caminho!"
às 13h10 um telefonema com a sua voz fazendo esta pergunta: "João, já aí está?"
Respondo-lhe: "Claro que sim, à sua espera!" ao que obtenho a seguinte comunicação empolgante que supostamente me alegraria muito: "então eu estou já a sair!"
E entre gracejos e alguma raiva comigo mesmo, sobriamente lhe digo "Não, o que você quer dizer é que ainda vem a sair, não é?"
6 meses depois eu riu-me porque ainda surpreendo... Como diz um amigo, vai chegar uma altura que já nada te surpreende e mas continuas a rir-te!
Essa altura não vai chegar Moçambique porque tinha apenas 3 dias para voar de volta a Portugal,à terra, a casa...
Depois, por incrível que pareça, é na tua terra, na tua casa que mais te surpreendes... e aí sim, dá vontade de chorar!!

De resto, como diz Nelson Mandela: "Não interessa onde estás na vida, há sempre mais viagem pela frente"
joão 2011